quarta-feira, 20 de junho de 2012

O Sonho


 Dez horas, o caminho pouco iluminado, as pernas trementes os passos apressados para chegar à estação do comboio.
Era a primeira vez que eu ia sair de casa sozinho. A minha pouca experiência a minha timidez tudo isto fazia com que as pernas tremessem. Chegado á estação, respirei fundo e pensei:
André tu és um homem.
O caminho é em frente.
Assim foi. Entrei no comboio, acomodei-me e fechei os olhos para reflectir.
A casa era enorme, tanto por dentro como por fora, havia muito espaço exterior. Uma piscina, jardins, lindas plantas, pássaros, tudo era lindo. Eu passeava naqueles passeios largos bem cuidados, muito coloridos de flores, respirava-se o perfume das flores. Estava encantado com tanta maravilha.
Por mais que caminhasse não encontrava alguém que me dissesse onde estava e o que fazia ali.
Voltei para traz em direcção à casa, andei, andei, por fim avistei uma criança numa cadeira de rodas. Aligeirei o passo mas não consegui chegar, um homem de branco puxou a cadeira e levou o menino.
Queria andar depressa mas as pernas não obedeciam.
De repente alguém me tocou no braço, abri os olhos e ouvi o senhor: o seu bilhete por favor. Confuso lá tirei o bilhete e pedi desculpa, pois tinha adormecido. Tentei fechar os olhos queria ver novamente aquela casa, aquele menino, porquê? Quem era?
Não mais consegui adormecer. O comboio parava, pessoas entravam outras saíam, assim foi até ao fim da minha viagem. Saí na estação mais próxima da cidade para onde me dirigia. Olhei á minha volta tudo era grande, muitas pessoas num entra e sai, escadas rolantes com muitas pessoas, era um mundo diferente do que eu estava habituado.
Dirigi me á sala de espera para pensar bem no que ia fazer. Para onde ir, a quem me dirigir para poder ter alguma orientação. Sentei me, encostei a cabeça para traz e fechei os olhos. Passados uns minutos alguém se sentou ao meu lado. A maneira como se sentou fez com que eu abrisse os olhos e reparei que era uma senhora de meia-idade e chorava. Sem querer ser intrometido perguntei-lhe se precisava de ajuda, se estava bem. Entre lágrimas a senhora me contou que esperava um sobrinho que vinha da sua terra para trabalhar com ela, mas à última hora teve um acidente e não pode vir.
Pensei alto, mas se não pode vir agora, vem logo que possa.
Aí, a senhora olhou para mim e disse:
 - Meu sobrinho acabou de falecer num acidente de carro na viagem para o comboio.
Fiquei sem palavras. Peguei na mão da senhora e tentei confortá-la.
Depois de limpar a cara a senhora olhou para mim e perguntou-me:
 - Que idade tem?
- 25, disse eu e chamo-me André. A senhora disse-me que se chamava Amélia e que o sobrinho tinha a minha idade, vinha para a cidade trabalhar como fisioterapeuta para casa dos patrões onde ela trabalhava, pois tinham um filho paraplégico.
Distraídos não nos apercebemos duma criança que chamava Amélia, Amélia! Voltei-me e vi um menino numa cadeira de rodas.
- João, disse Dona Amélia. Como vieste?
- Foi a mãe, queria estar contigo nesta hora difícil. Os dois se abraçaram.
- Quem é este?
- Este é o André, conheci-o aqui mesmo quando me sentei para chorar.
- Olá André, eu sou o João.
- Olá João, estendi o braço para o cumprimentar e estremeci, aquela era a criança do sonho.
Não pode ser, é apenas coincidência. Olhei para o menino e aquele olhar, aquele sorriso não me eram estranhos. Que esquisito, o que está acontecer comigo.
- André tu moras cá?
- Não, acabei de chegar.
- Queres vir comigo?
- Contigo, mas….
- Preciso de alguém que possa estar comigo, para estudar, brincar e conversar, tu podes vir comigo?
- Bem, eu posso, mas acabei de chegar, não tenho onde ficar, preciso de emprego.
Dona Amélia olhou para mim e disse:
- André, talvez seja a tua hora de sorte.
Segui em frente com Dona Amélia, o menino e Dona Carmem, a mãe do João. Quando o carro parou em frente á casa eu estremeci. Não queria acreditar, estou com alucinações!
Pedi que me deixassem espreitar á entrada do portão.
Era a casa do sonho. Tudo era exactamente igual ao sonho.
Dias passaram e eu passeava, brincava com o João naqueles passeios largos e bem tratados.
Um dia Dona Carmem me falou o quanto João precisava de um fisioterapeuta e propôs-me pagar o curso se eu tivesse vontade.
Não pensei duas vezes; 1º porque assim eu podia ajudar o João e 2º porque era uma mais-valia para mim, pois tinha interrompido os estudos.
Tudo era bom!
Eu perguntava a Dona Amélia como tive tanta sorte.
Meu filho ela sempre está ao nosso lado, às vezes olhamos para o lado errado.
Tempos passaram, acabei o curso e um dia ao passear com o João pelos jardins, lá estavam: o menino na cadeira de rodas e o homem vestido de branco. 

Psicografia de: MCF

segunda-feira, 12 de março de 2012

Viagem por "terras cinzentas, sombrias e feias"

Dois dias, foi o tempo que durou o meu passeio por terras cinzentas, sombrias e feias.
Fui levado a uma viagem que mais parecia uma viagem no comboio fantasma que existe nas feiras populares. Durante a viagem atribulada fui obrigado a ver imagens que nunca pensei que existissem.
Dor, sofrimento e angústia era o que eu podia ver estampado nos rostos escurecidos das pessoas que por ali se amontoavam. De vez em quando aparecia um homem alto todo-poderoso que olhando para alguns caídos, apontava o dedo e logo outros dois homens, também altos e fortes, obrigavam a levantar e a segui-los.
Este cenário acontecia várias vezes. Nem sempre eram os mesmos todo-poderosos.
A dada altura num vale mais sombrio, onde o nevoeiro era serrado tornando impossível á vista quem quer que fosse. Apenas se ouviam gemidos, urros e barulhos ensurdecedores.
Para meu espanto vi aproximar-se um clarão e com dificuldade aproximei-me e vi alguns homens de branco, trajavam umas fardas, mais pareciam enfermeiros.
O movimento era lento, calmo e com tanta serenidade que me senti bem perto daquelas pessoas. Uns levantavam os feridos, doentes, degradados pelo tempo e os transportavam em macas. Outros se dedicavam a falar, em prestar auxilio, que alguns não se mostravam interessados em ouvir.
Distraído e tentando perceber onde estava e o que se passava, não dei conta de, um daqueles homens de branco, chegar perto de mim e me dizer:
Irmão, a tua hora ainda não chegou.
Volta para casa.
Quando recordares tudo o que vistes, pergunta-te o que terás que aprender com esta viagem!

Psicografia de: MCF em 01/02/2012

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Cavei a minha Sepultura

Um dia cavei a minha própria sepultura.
Odiava tudo e todos que não me obedecessem. Odiava, maltratava e até matava.
Tudo que não fosse como eu queria, era eliminado. Todos que não me obedecessem eram punidos.
Foi assim a minha vida. Durante muito tempo era rei. Queria, podia e mandava. Sempre tive tudo. Nunca olhei para o lado para ver os outros.
Construi um império, onde todos me veneravam (achava eu).
Um dia mandei espancar um mendigo que apareceu no meu território. Homem velho, andrajoso, débil e faminto. Uma coisa destas não fazia parte do meu mundo.
Dei ordem para mo tirarem da vista.
Tempos passaram e eu adoeci. Três dias após ter adoecido eu adormeci.
Quando acordei não sabia o que me tinha acontecido. Chamei pelos meus homens, gritei, implorei que me viessem ajudar. Qual quê! O poço era escuro, profundo, tinha frio, medo e enraivecido por não me ajudarem, gritei.
Gritei tão alto que era impossível não me ouvir. Inconformado sentei-me e chorei.
A certa altura senti que alguém me puxava, ajudava a sair daquele buraco.
Cá fora tive tanto medo que tive vontade de me atirar para o buraco de onde me tinham tirado.
Senti uma mão que puxava o meu braço e me disse: amigo é por aqui!
Não vi o rosto, nem me preocupei em saber quem era, eu queria era sair daquele sítio.
Depois de caminhar algum tempo, a pessoa convidou-me a sentar. Pediu-me para respirar fundo e convidou-me a conversar. Naquele momento senti-me desprotegido do meu trono, pois em ocasião alguma alguém me dirigia a palavra. O único que falava, mandava e obrigava era eu.
Pelas circunstâncias, eu me sentia despido das minhas couraças e percebi que não tinha nada. Com a cabeça entre as mãos, chorei, chorei, chorei… A pessoa sentou-se á minha frente pediu-me as mãos e eu, como uma criança amedrontada, estiquei os braços, toquei as mãos e olhei para o rosto da pessoa.
Era ele. O mendigo que eu tinha mandado espancar e retirar da minha vista. Andrajoso, velho, débil e com um sorriso no rosto brilhante, lindo. Eu nunca tinha olhado para um rosto a sorrir.
-Amigo, qual o caminho que quer seguir?
Sem hesitar, eu respondi: vou para onde você for.
-Mas o amigo não me conhece? Como pode confiar em mim?
-Posso chamar-lhe amigo?
Depois de o mandar espancar só porque apareceu no meu território, andrajoso, débil, velho e faminto, eu não merecia que me ajudasse a sair do poço. Não merecia que me protegesse e muito menos, mereço o seu sorriso. Para onde o amigo for eu vou.
Tenho a certeza que não me levará para nenhum território onde eu vou ter quem me faça o que eu lhe mandei fazer!

Psicografia de: MCF em 20/02/2012